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Morre Manoel Bezerra, fundador da Manchete Calçados

Faleceu neste domingo (5) o empresário Manoel Bezerra, fundador e dono das lojas de calçados Manchete, bastante tradicional em Natal.

Ele deixa a esposa Eleika e duas filhas, Kassandra e Rochele.

Confira abaixo uma entrevista do empresário Manoel Bezerra à Tribuna do Norte, em 2014, quando a Manchete Calçados estava prestes a completar 50 anos.

De engraxate à ascensão no setor de calçados

No próximo dia 18 de junho, a loja mais tradicional de calçados em Natal completa 50 anos. As cinco décadas da Manchete Calçados representam mais do que o sucesso empresarial do seu fundador, Manoel Bezerra, mas é o marco de sua história de superação. Do menino que vivia em um sítio na zona rural de Acari – e guiava o avô cego, para pedir na vizinhança – ao bem-sucedido empreendedor e empresário, que construiu uma marca consolidada, sem nunca ter frequentado a escola.

Em entrevista à Tribuna do Norte, Manoel Bezerra conta esta trajetória, fala das lições que aprendeu e do que é preciso para crescer no comércio. O empresário, que ainda hoje é o primeiro e o último a chegar na empresa, comenta sobre como anda o setor e o diferencial da companhia.

Como o senhor se tornou um grande empresário do setor de calçados?
Foi o destino. Eu tinha 12 anos, quando vi a cidade pela primeira vez e resolvi fugir. Eu morava no meio do mato, em um sítio, em Acari. Comecei andando, depois peguei uma carona. O caminhoneiro me deixou no  mercado em Currais Novos e eu pensei: aqui é minha casa.  Eu comia o que os donos das bancas me davam, dormia nas bancas e comecei engraxar sapato, com uma caixa que me arrumavam. Até que um dia um senhor, que estava engraxando o sapato, perguntou se eu queria aprender a arte do sapato. Foi quando fui trabalhar numa fabriqueta, fazendo mandados. Eu ia para lá todo dia, ele me dava 50 centavos, e com isso, eu comprava três biscoitos e um quarto de rapadura, que era o que eu comia. Foi quando eu comecei a fazer peças miudinhas com o restinho de couro. Eu aprendi fazer sandália de criancinha e ganhava um dinheirinho.

Foi aí que surgiu o comerciante?
Foi quando chegou um senhor, que era meu cunhado, Jeci de Assis Dantas, marido de uma irmã minha, que eu nem conhecia, porque era filha do primeiro casamento do meu pai. Ele estava vindo  de Caicó e ia trabalhar no Banco do Brasil de Currais Novos. Foi quem me deu a mão. Ele me levou para morar na casa dele. Foi quando eu comecei a ter boa alimentação, a ter uma casa para dormir.   Bancário naquela época só não fazia chover. Ele perguntou o que eu fazia, eu disse que aqui e acolá fazia feira para o irmão do dono da oficina. Ele me ajudou a comprar uma banca de feira por 15 contos. Eu cheguei para o dono da oficina e falei que eu ia fazer feira em Santa Cruz, Campo Redondo e Currais Novos. Na época das festas das cidadezinhas,  eu ia fazer as feiras das festas e vendia bem. O dono da oficina disse que fornecia a mercadoria e no final da última feira, eu pagaria o que vendi e fabricava, com ele, as faltas. Foi quando eu comecei, em 1957, a fazer as feiras e quando eu comecei a ganhar dinheiro. Mas eu gastava tudo. Foi quando meu cunhado me deu a lição: você não tem estudo, então, faça o seguinte: gaste o necessário e o que sobrar guarde no banco. Eu não gastava nada porque ele bancava tudo, até carro para andar eu tinha. Então, eu comecei toda terça-feira, eu tirava X para gastar e o restante colocava no banco.

E como o senhor veio para Natal?
Em 1963, eu achava que estava rico e vim morar em Natal. Quis fazer feira em Natal, mas o sistema aqui era diferente do interior. Eu tinha uma irmã que morava aqui, e vinha toda semana para a casa dela, final de semana ia para o interior fazer feira. Foi quando surgiu o pontinho na Corenel Cascudo e eu comprei o ponto para colocar loja.

Na época, a rua já era comercial?
Era uma rua residencial, de repúblicas de estudantes, mas tinham algumas lojas.

Conseguiu juntar tanto dinheiro assim nas feiras que o senhor comprou o prédio?
Eu tinha comprado só o ponto. Mas em 1968, o dono do prédio colocou a venda. Esse prédio era de um rapaz que era dono de uma farmácia e ele me pediu 20 contos, 10 contos de entrada e 20 prestações de 500. Eu cheguei para meu cunhado, que na época já era chefe de carteiras de cobrança da agência do Banco do Brasil da Cidade Alta e falei para ele.  Eu tinha 16 contos e 800 de mercadoria, então, ele pediu para eu pegar os  10 de entrada no Banco do Brasil. Meu cunhado anotou todos os dados e só entreguei ao gerente, seu Otávio. Ele me deu um promissória. E eu peguei o dinheiro no saco. Peguei o dinheiro, dei os 10 mil ao dono do prédio e quando foi passar a escritura, as promissórias estavam vinculadas a escritura. As promissórias foram pagas a um fornecedor, Bornérgio Trigueiro, que era o maior atacadista de medicação e o dono do prédio devia a ele. Todo dia do apurado, eu tirava um pedacinho e colocava no cantinho. O rapaz que vinha pegar o dinheiro, nunca veio para não levar. Vinte meses depois, chega um senhor, forte, numa Kombi de luxo, com cortina e perguntou “quem é Manoel Bezerra?” e disse “eu vim lhe conhecer porque eu recebi umas promissórias suas de um dinheiro que achava que estava perdido e meu irmão nunca veio aqui para não levar esse dinheiro. Por isso vim aqui para lhe conhecer.”. Era o Bonérfio Trigueiro, que na época era milionário.

E o nome Manchete? Como foi que o senhor escolheu?
Tinha um colega meu que tinha uma loja na rua e perguntou o nome que eu ia colocar. E eu disse “JK” e ele disse que não dava certo nome de político. E falou coloque Manchete, que era um nome mais criativo, bonito. Depois de um tempo, quando a Manchete veio para cá, onde o dono chegava e dizia que era da Manchete, o povo pensava que o cheque tinha voltado, achando que era da Manchete Calçados. Depois ligou um diretor do Rio de Janeiro, agradecendo o nome, dizendo que aqui não precisava de propaganda porque o nome já estava feito.

E como o senhor começou a expansão?
No comércio se você tiver venda, sobra alguma coisa e o concorrente acaba obrigando você a abrir mais lojas. Então fui abrindo loja. A segunda foi em 1970.

Quantas lojas o senhor tem hoje? E quantos funcionários?
Hoje tenho 8 lojas, 3 na Cidade Alta, uma no Alecrim, uma no Norte Shopping, uma no Midway Mall, uma no Natal Shopping  e outra no Hiper Bompreço de Ponta Negra. Hoje são 94 funcionários, mas já cheguei a ter 125, depende do momento do mercado.

O senhor começou vendendo só para mulher e depois passou também atender o público masculino. Qual é o melhor?
No início era só sandália baixa, só para mulher, depois quando eu comprei o prédio vizinho, que abri uma loja maior, coloquei calçados em geral. O mercado era carente, tinha poucas lojas, tinha mais o mercado da cidade, que pegou fogo, e aí minhas vendas aumentaram. Em 1974, comecei a vender para homens também. Se o calçado de mulher fosse igual o de homem, era todo mundo rico, porque o que não existe prejuízo. O sapato de mulher deixa muito saldo. Homem você vende tudo. Se for desatualizado, mulher não compra.

O mercado de calçados é muito concorrido? Qual é o seu diferencial?
Quando cheguei em Natal, a população era de 280 mil habitantes e já era muito concorrido, mas em menor proporção. Hoje é muito mais, porque têm as grandes redes, que têm 200 e tantas lojas. Mas nesses 50 anos, toda a vida, eu tive crédito. E o segredo do comércio é crédito, você comprar e pagar, porque a outra ponta também tem compromisso. Eu graças a Deus sempre paguei em dia.

E o diferencial?
É o poder de compra, porque as fábricas dão melhores condições de compra. Eu procuro os menores prazos para conseguir desconto. Já as redes, querem 120, 180 dias. O que eu pego de desconto repasso para o cliente. E, é muito simples, o industrial seleciona os pedidos e dá preferência a quem paga rigorosamente e eu, graças a Deus, estou no meio.

O senhor pensa em abrir mais lojas? Em ir para outro Estado?
Abrir mais loja, depende se surgir local porque tudo é local e oportunidade. Mas eu nunca pensei em ir para fora, acho que meu lugar é aqui.

E como o senhor avalia o mercado hoje?
O setor hoje está muito fraco,  porque está todo mundo endividado, com esse bichinho chamado cartão de crédito. Por um lado é uma beleza, todo mundo tem tudo. Mas a complicação é atrasar. Não é fácil não. Eu nunca usei. Mas a felicidade da gente também foi o cartão de crédito, foi a salvação da lavoura. Porque todos podem comprar. Mas acho que isso é em todos os setores.

E como será o futuro das lojas? Suas filhas lhe ajudam?
Eu tenho minha esposa, que dá um expediente, e tenho uma moça que faz tudo. Mas minhas filhas têm lojas delas.  Mas elas vão ter que cuidar, se quiserem continuar, porque tudo é delas. Elas já trabalharam comigo, uma me ajuda até hoje indiretamente. Mas eu quem administro tudo, sei de tudo das lojas.

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