Pular para o conteúdo principal

BOMBA: PF grava sócios da Dismed falando em dinheiro para campanha de Allyson

O Blog do Dina publica nesta sexta-feira (25) o segundo vídeo da escuta ambiental que a Polícia Federal instalou dentro da Dismed Distribuidora de Medicamentos, em Mossoró. São 3 minutos e 35 segundos gravados na manhã de 14 de maio de 2025, a partir das 9h09, na mesma sala dos vídeos anteriores. Desta vez a conversa é entre o sócio Oseas Monthalggan Fernandes Costa e José Moabe Zacarias Soares, que a PF trata como sócio de fato da empresa, e o assunto não é a compra de remédio. É o que fazer com a propina.

[CTA autoral]

A frase central é de Moabe, simulando o que diria a “Marco”: “Eu tenho que dar aqui a você duzentos mil de propina hoje. Aí eu pago cem, você está entendo, e cem… você guardando pra sua campanha”. Oseas concorda: “É!”. Nos minutos anteriores, no primeiro dos dois arquivos que compõem o vídeo, era Oseas quem propunha o mesmo desenho: “vou até combinar com Marco dizendo assim: Marco, eu tenho que criar moral com o homem. Será que não é melhor essa propina você ir juntando… guarde, pra quando chegar a campanha… Você bota aí um ano e nós junta aqui quinhentos”.

MOABE: Mas… Ele vai cobrar o valor. Eu tenho que dar aqui a você duzentos mil de PROPINA hoje. Aí eu pago cem (R$ 100.000,00) você está entendo e cem… você guardando pra sua CAMPANHA.

OSEAS: É!

MOABE: Agora, aquele negócio, porque… Você chegando na campanha ou na campanha de ALLYSON, você chegou na campanha de ALLYSON independente de qualquer coisa, você vai dizer assim. ALLYSON… [trecho inaudível] …vai desconfiar de que ele está roubando…

OSEAS: Não, …a campanha dele não…

MOABE: Ele tem que se preocupar com a campanha dele (MARCO)

OSEAS: Pra dele, homi! …Um monte de estória. Agora, por exemplo… a gente chegar com moral com o HOMEM (?) pra GOVERNO.

MOABE: É!

A defesa de Allyson Bezerra sustenta, desde o dia da operação, que a investigação se apoia em conversas de outras pessoas. Foi a linha da nota dos advogados em 27 de janeiro, quando afirmaram que a busca tinha se baseado em diálogos envolvendo terceiros, e foi a linha da petição com que ele pediu ao Tribunal Regional Eleitoral, neste mês, a retirada de uma propaganda adversária: os elementos da investigação “decorreriam de diálogo entre terceiros” e “não haveria imputação formal” contra ele. Não há manifestação nova da defesa sobre este vídeo. E ele é, de fato, um diálogo entre terceiros: nenhum agente público aparece na sala nem fala na gravação. O que se ouve é o que dois empresários, ambos com passagem pela política, planejavam fazer com o dinheiro: Moabe foi vice-prefeito de Serra do Mel e candidato a prefeito em 2024; Oseas foi vereador em Upanema e também disputou a prefeitura da cidade em 2024.

Quem é “o homem”, quem é “Marco”

Vale a precisão, porque ela importa. Os nomes que aparecem no vídeo são os que Oseas e Moabe dizem. Quem os lê como pessoas reais é a Polícia Federal, no laudo que catalogou a escuta. Ali, “Marco” é “provavelmente o atual vice-prefeito da cidade de Mossoró/RN, Marcos Antônio Bezerra de Medeiros, futuro candidato a cargo eletivo e destinatário de valores (propina) a ser oferecida pelos representantes da Dismed”. E sobre “o homem”, a PF escreve: “entendemos aqui que a referência é feita ao atual prefeito de Mossoró/RN, Allyson Leandro Bezerra Silva”. Os verbos são da PF, “provavelmente” e “entendemos”, e este blog os mantém.

No segundo arquivo, o nome de Allyson deixa de ser interpretação e passa a ser dito. Moabe fala em “campanha de Allyson” duas vezes, e Oseas, em “dizer o seguinte a Allyson”. A PF resume assim: há “menção direta aos nomes do atual prefeito e vice de Mossoró/RN, respectivamente Allyson e Marcos, o primeiro como candidato ao governo do Estado”. Na peça em que pediu as medidas da operação, a Polícia Federal acrescentou um parágrafo de contexto: “no atual cenário político do município de Mossoró, Allyson Bezerra está sendo projetado como futuro candidato a governador do estado do Rio Grande do Norte”, e anexou uma pesquisa de intenção de voto. Hoje ele é o candidato.

Marcos Medeiros é hoje o prefeito de Mossoró. Assumiu em 27 de março, quando Allyson renunciou para disputar o governo. Na data da gravação, era vice-prefeito, e a PF registra que os diálogos “ocorreram já no ano de 2025, quando Marcos Antônio já havia assumido como vice-prefeito e não ocupava mais nenhuma função na Secretaria de Saúde”. O contato direto entre Oseas e Marcos, diz a PF, foi constatado em mensagens e ligações de WhatsApp reunidas numa informação policial.

O que o juiz escreveu sobre esta fala

Quando autorizou a operação, em 22 de janeiro, o desembargador do caso dedicou um trecho a este vídeo. Sobre a frase dos “cem e cem”, escreveu: “Essa fala não deixa muita margem a outras interpretações: os interlocutores discutem abertamente o pagamento de propina e sua destinação para campanha política”. Sobre o conjunto, registrou que os dois “discutem a estratégia de acumular valores de propina para financiamento de campanha futura, mencionando tanto Allysson Leandro Bezerra Silva quanto Marcos Antônio Bezerra de Medeiros neste contexto”, e que os envolvidos “estão cientes desta dinâmica sucessória e planejam suas ações considerando este cenário futuro”.

A decisão também diz o que o vídeo não prova sozinho. A contribuição de Allyson na estrutura descrita “seria, conforme os indícios até aqui coletados, a de garantir a continuidade dos contratos”, e a anuência dele “seria, em tese, essencial para a manutenção do sistema”. É a mesma cautela que a PF usa quando escreve “provavelmente” e “entendemos”. Ninguém foi denunciado até aqui. A investigação está em curso no Tribunal Regional Federal da 5ª Região, e o que se publica é o diálogo que consta dos autos, com a transcrição que consta dos autos.

Os dois milhões no apartamento

O vídeo guarda uma segunda frase que a Polícia Federal usou para outro fim. No meio da conversa sobre a campanha, Moabe diz que guardou “quase dois contos” — dois milhões, na leitura da PF — num “apartamento de Aldo”: “Eu fiquei com o cu que não passava um cabelo”. A PF cita essa fala no bloco sobre lavagem de dinheiro, como indício de “armazenamento de dinheiro em espécie”, ao lado das fotos de dinheiro em gavetas na sala dos sócios. O “Aldo” da conversa é associado pela PF a Aldo Araújo, chefe do controle interno de Serra do Mel, município cuja prefeitura é investigada no mesmo caso, e que a peça da PF identifica como sogro de Moabe. Na transcrição, o nome vem seguido de um ponto de interrogação, marca da própria PF para o que ela não teve como confirmar. Este blog o mantém.

O que a máquina não ouviu

As legendas cravadas na imagem reproduzem a transcrição oficial da Polícia Federal, inclusive os “(?)” e os trechos marcados como inaudíveis. Não é legenda automática. O reconhecimento de voz por máquina, rodado antes pela reportagem, escrevia “campanha de alça” no lugar de “campanha de Allyson” e “aquele apartamento de alça que eu guardei lá no parque” no lugar dos dois milhões no apartamento de Aldo. O nome sumia.

O primeiro arquivo começa antes do diálogo: a PF registra a entrada de Moabe na sala por volta de 1min13s e o início da conversa em 1min54s. O vídeo publicado começa nove segundos antes disso, para que se veja de onde vem o corte, e segue sem interrupção até o fim do segundo arquivo, onde a transcrição oficial termina com “Pra campanha, eu vou dar…”.

Por que o vídeo sai agora

O conteúdo desta conversa é público desde 27 de janeiro, dia da operação, quando este blog publicou, em texto, que a decisão descrevia a acumulação de propina para financiar campanhas. O que não era público era a imagem. O primeiro vídeo da escuta saiu neste blog no sábado (19), com a frase sobre o prefeito ladrão. O da “matemática de Mossoró” circulou nesta quarta-feira (23), publicado pelo Diário do RN. Este é o terceiro a vir a público e o segundo deste blog. Restam 34 arquivos.

O espaço está aberto para manifestação.

Comentários

Lapac Saúde João Câmara

Lapac Saúde João Câmara
3262-3478 - 99401-7616*

R.CRUZ Assessoria Contábil

R.CRUZ Assessoria Contábil
(84) 3262-4059 - (84) 99417-1619